Sobre o Mito dos Estilos de Aprendizagem

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Estou em uma discussão interessante com a professora da matéria de avaliação. A primeira parte que estamos estudando é em relação a estudos feitos na área de “estilos de aprendizagem” e lemos um texto interessante sobre a coaprendizagem e os “estilos de aprendizagem” nesse meio online. No artigo, os professores falam sobre os estilos ativo, reflexivo, teórico e pragmático. Bem, meu argumento é de que isso não é “estilo”, e sim, formas de participação.

Coloquei o seguinte para a professora e colegas,

Bem, o resultado do Honey-Alonso  deu que estou entre o ativo e pragmático como minhas característica mais prominentes: Ativo =16 Reflexivo =10 Teórico =11 Pragmático =14

Li o texto Coletividade aberta de pesquisa: os estilos de coaprendizagem no cenário online . No entanto, acho que o que é mencionado como “estilo de aprendizagem” está mais para características de participação. Fico um pouco incomodada com o termo, “Estilos de aprendizagem” já que esse conceito tem sido amplamente debatido e contestado nos meios acadêmicos, principalmente com a maior interseção de estudos feitos na neurosciência e educação. Na verdade, “estilos de aprendizagem” têm sido considerado um neuromito ( http://thinkneuroscience.wordpress.com/2013/04/11/the-myth-of-learning-styles/), já que não há em nosso cérebro conexóes específicas formadas para “cada estilo”. Na verdade, hoje há um entendimento que para aprendermos, há vários processos que ocorrem em nosso cérebro que vão muito além do tipo de input sensorial que recebemos. É claro que vi que no texto, não se fala nos estilos de aprendizado que estamos acostumados a falar como o auditivo, kinestético, etc, mas mesmo assim, acho que o que os autores apontam está muito mais para características de participação e desenvolvimento de competências digitais para a colaboração e coaprendizagem.

Depois do resposta da professora que falava da importância de entendermos como aprendemos independente de nomenclatura e modismos, busquei ajuda de uma amiga estudiosa da neurociência para trazer input que fosse relevante para a discussão. Pensei, inicialmente, em ficar calada para não ser mal interpretada ou parecer polêmica, mas acho interessante educadores e alunos buscarem um novo olhar e entendimento sobre a forma como nosso aprendizado se processa. Bem, pelo menos, para mim, entrar no mundo da neurociência, me aprofundando mais um pouco no assunto, foi revelador, um aprendizado incrível que tem impactado diretamente minhas aulas tanto presenciais quanto online. E, nesse sentido foi que compartilhei no fórum de discussão a seguinte colocação sobre o tema,

Professora, entendo a abordagem, mas devido ao meu interesse já há algum tempo na neurosciência para nos ajudar em nossa sala de aula e na busca de entender exatamente como aprendemos, como nosso cérebro funciona é que levantei esse entendimento recente sobre a questão do mito dos “estilos de aprendizagem”. Acho que é importante discutirmos isso, tendo como base essas pesquisas recentes e estudos sobre o funcionamento neural que nos dão dicas preciosas sobre o entendimento de como aprendemos.

Pedi para uma amiga que tem bastante conhecimento na área de neurociência para embasar um pouco mais o que estava dizendo sobre “estilos de aprendizagem” na tentativa de todos aprendermos e discutirmos isso. Ela diz, baseando-se em pesquisas e descobertas científicas que,

“Não há suporte nas pesquisas neurocientíficas que evidenciem a existência de estilos de aprendizagem no cérebro. Os fatores que interferem no processo de aprendizagem estão relacionados aos processos cognitivos envolvidos na aprendizagem. Todos os  inputs sensoriais chegam ao cérebro na mesma região (região cortical atrás da cabeça) por meio do tronco cerebral. Nesse momento, não há preferências quanto ao tipo de input sensorial recebido (auditivo, tátil, visual, etc). A formação e permanência da memória relacionada ao conhecimento que é adquirido em sala de aula são influenciadas pelo fortalecimento das sinapses (espaços de conexões neurais). Quando o conteúdo é trabalhado de forma a promover seu entendimento, o cérebro utiliza-se do córtex prefrontal (o centro executivo) para efetuar operações de pensamento de ordem superior (analisar, julgar, etc). Dessa forma, a maneira como o input sensorial chega ao cérebro não é tão importante quanto a promoção de uma aprendizagem mais profunda. Isso não signifca dizer que o professor não deva utilizar-se de diferentes recursos em suas aulas. Muito pelo contrário, quanto mais diversificado o tipo de atividades propostas, melhor a chance de engajar os alunos em tarefas que requerem que o cérebro realize operações de ordem superior.  Na verdade, os cientistas cognitivos e os neurocientistas têm nos ajudado a desmistificar algumas crenças e práticas que não favorecem, de fato, a aprendizagem.  A aprendizagem não tem a ver com os estilos, e sim o que você faz com o input.”

Essa visão é corroborada, por exemplo, em um trecho de um artigo super interessante de Howard Gardner sobre o tema,

“Senses: Sometimes people speak about a “visual” learner or an “auditory” learner. The implication is that some people learn through their eyes, others through their ears. This notion is incoherent. Both spatial information and reading occur with the eyes, but they make use of entirely different cognitive faculties. Similarly, both music and speaking activate the ears, but again these are entirely different cognitive faculties. Recognizing this fact, the concept of intelligences does not focus on how linguistic or spatial information reaches the brain—via eyes, ears, hands, it doesn’t matter. What matters is the power of the mental computer, the intelligence, that acts upon that sensory information, once picked up.”

Não quero parecer polêmica, mas achei importante trazer uma outra perspectiva sobre o tópico, pois são pontos de partida para mais uma forma de compreender como aprendemos.